Publicado por: Dan Caumo | 5 Abril, 2008

Razão e Emoção

                Noto que é muito comum classificar emoção e razão como termos antagônicos, conflitantes. Porém, não entendo porque muitos acreditam que seja assim e tomam partido de um único elemento em suas vidas. Não são poucos os intelectuais que defendem a privação total das emoções de um indivíduo em busca de uma razão total. Porém, pelas minhas experiências, posso constatar que são coisas complementares, quando não são contínuas. Em muitos casos um elemento serve para legitimar o outro.

                Eu não tinha nem um anos de idade e meus pais buscavam condições melhores de vida. Ambos vieram de famílias bastante humildes, não chegava a faltar comida em casa, mas também, não sobrava muito além do suficiente para as necessidades básicas. Porém, era final dos anos 80 e a situação econômica do país era assustadora, a cada semana os preços subiam e por vezes a alimentação ficava comprometida. Por fim, com muito esforço e sacrificando bens que acumularam com muitos anos de trabalho, decidiram sair do país. Não tiveram muitas dificuldades de conseguir o visto já que o cônsul norte-americano ficou impressionado com a fotografia do bebê com cabelos loiros e olhos escuros, que para ele era uma combinação incomum. Com o visto carimbado nos três passaportes, os dois iriam antes, estabelecer-se-iam primeiro para depois poderem buscar o bebê de cabelos loiros e olhos castanhos que ficaria morando com os avós.

                Com a convivência acabei criando muita afeição aos dois e por isso tornaram referenciais para o meu modo de pensar o mundo, embora eu nem imaginasse o que isso significava na época. As brincadeiras sempre pedagógicas e artísticas da vovó, que era uma artesã, e as lições de moral do vovô, um advogado, combinados ao respeito e o amor por eles moldavam premissas para o desenvolvimento do meu caráter. Principalmente porque eles faziam sua parte na sociedade, minha avó sempre arrecadava cestas básicas para distribuir para a população mais pobre do bairro de classe média baixa em que vivia. Meu avô nunca negou ajuda a quem aparecesse.

                Havia quase um ano que meus pais estavam nos Estados Unidos e veio a notícia de que a minha avó tinha um câncer na garganta, surpresa maior porque minha avó sempre se cuidou e nunca fumou. Na época não tinha noção muito bem do que ocorria, mas podia notar que ela estava ficando cada vez mais fraca, magra e deprimida e que não brincava comigo como antes. Minha mãe voltou para o Brasil, meu pai continuou lá. Foi um tratamento complicado, mas o tumor foi removido com sucesso. Aos poucos recuperou a saúde, ganhou peso, ficou mais corada.

                Os anos passavam, minha mãe sempre me deixava na casa da vovó para ir trabalhar e meu pai continuava nos Estados Unidos, a única referência que tinha dele eram fotografias e vídeos, não havia como ter sentimentos por imagens planas a não ser uma distante simpatia. Chamava qualquer homem com bigode saliente que aparecia na TV de pai. Se algum dia, por mais improvável que seja, tivesse encontrado com o ator Tom Selleck (o protagonista de “Três solteirões e um bebê”) na rua, poderia constranger tanto ele quanto a minha mãe, pois não foram raras as vezes que apontei para ele na TV chamando de papai. Na casa da vovó, reunido com os primos, as brincadeiras mudavam. Tendo como referência as séries para o público infantil da época como Jaspion, Giraya, as brincadeiras de lutas e, conseqüentemente, de polícia e ladrão, eram as mais comuns; mas sempre que via, a vovó tratava de condenar aquelas brincadeiras. Tanto a vovó quanto o vovô tinham uma implicância com polícia e exército. Não conseguia entender o motivo de tanta implicância, mas também não questionava.

                Depois que o meu pai voltou para o Brasil, mudamos de Minas Gerais para o Rio Grande do Sul, terra natal do meu pai. Fiquei cada vez mais distante da vovó e do vovô, mas nas férias de final de ano sempre viajava para a casa deles. A cada ano que avançava no colégio, me interessava cada vez mais pelas aulas de disciplinas humanas, principalmente as de história. Criei uma visão cada vez mais crítica, mesmo prematura, e sempre que se falava em exército havia uma desconfiança de minha parte. Nas férias, tanto a vovó quando o vovô contava histórias de suas vidas. Os dois tinham passado tanto pela ditadura de Vargas quanto a do Regime Militar das décadas de 60, 70 e 80, e por vez ou outra contavam algo relacionado aos abusos da força militar que presenciaram. Nessas histórias não chegavam a relatar o contexto histórico, mas a associação era automática quando a professora de história comentava algum fato parecido com os que já haviam sido feitos pelos avós. Criei uma antipatia crescente com a idéia de exército a partir da reflexão e conhecimento que acumulava, encontrava cada vez mais argumentos para criticar e entender a implicância da vovó e do vovô. Um dos argumentos era que o exército servia apenas para a dominação de uma classe sobre a outra, que o exército serve para preservar uma segurança nacional que na verdade é uma segurança das classes dominantes manterem o poder. A raiva que sentia nutria a reflexão crítica que me trazia mais raiva e fechava o ciclo de uma roda que se direciona para um pensamento pacifista. Por tudo isto, tornava-se cada vez mais assustadora a idéia de alistar-se ao exército, o que ia totalmente contra os meus princípios. Enquanto a maioria dos meus colegas adorava a idéia de maioridade que estava próxima, eu não queria que isso acontecesse nunca.

                Porém, o tempo é igual para todos. Veio formatura do colégio, completei 18 anos na véspera do vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, passei para o curso de Arquitetura naquele vestibular. Durante todo o verão daquele ano tinha várias datas a cumprir: a da formatura, a do vestibular, a da matrícula presencial da faculdade, a do alistamento do exército; assim, não teve como visitar os avós em Minas e como a vovó estava com problemas de saúde, eles não puderam vir também.

                O alistamento em si não foi algo tão ruim, embora no meu interior eu estivesse traindo os meus ideais. Depois de assinar o meu nome e imprimir as digitais em uma folha de papel, recebi um documento que dizia que eu deveria comparecer novamente em uma determinada data do mês de agosto para jurar a bandeira, fazer os exames e saber se seria dispensado, algo que não poderia querer que fosse diferente, pois eu já estava na faculdade e não queria perder tempo fazendo algo que não aceitava para mim e que adiasse o sonho de ter uma profissão em que eu pudesse modificar de alguma forma a sociedade para o bem.

                Com tantas novidades, principalmente as relacionadas a faculdade, os meses pareciam passar mais rápido do que o habitual e enquanto eu queria que o momento de jurar a bandeira não chegasse, também queria que as férias de verão chegasse logo para poder enfim descansar, já que nas férias passadas estava atribulado com o vestibular e as responsabilidades que envolvem a maioridade, e ver novamente os avós que não via há um ano e meio.  Nas férias de inverno acabei ficando em Porto Alegre como era comum e logo que começou o segundo semestre a preocupação com o juramento à bandeira crescia.

                Na véspera do juramento, saí com meu pai para resolver um assunto relacionado a arquitetura, pois eu queria estar presente com ele e com a arquiteta para compreender melhor os problemas da profissão; porém naquele dia não me sentia muito bem. Enquanto meu pai falava com ela, eu não conseguia me concentrar, estava disperso como nunca antes, pensava no juramento, mas havia alguma coisa que me incomodava muito mais, porém não sabia o que era. No retorno para casa, o telefone celular toca, eu atendo, pois meu pai está dirigindo o carro. A minha mãe com a voz embargada:

                – Posso falar com o seu pai?

                – Ele não pode atender agora, está dirigindo. – Respondo já entendendo o que se passava.

                – É urgente!

                -Espera só um estante. – Respondo ao celular. – Pai, é urgente.

                Após estacionar o carro, entrego o telefone a ele e sem prestar a atenção ao que dizia, compreendo o motivo de tanta aflição. Fico estático sem querer acreditar que o que eu imaginava era verdade. Ele desliga o telefone e não me remete nenhuma palavra. Quando estaciona o carro na porta de casa a confirmação:

                – Sua avó morreu!

                Saio correndo do carro, fugindo de algo que não sei dizer o que era, me escondo no meu quarto e me coloco a chorar desesperadamente, já que a saudade que sentia da vovó era tamanha e não ia encontrá-la nas férias de verão mais. Os primos, os mesmos que brincava na infância com a supervisão dela, e a tia que vieram de Minas e estavam de visita, logo programaram o retorno adiantado e eu pensando em acompanhá-los para dar o adeus a ela me deparei com a idéia de que tinha o juramento. Meu pai ligou para a polícia para explicar o caso e saber se me liberavam. A resposta foi que se eu faltasse poderia ser autuado pelo poder público e perder todos os meus direitos civis e assim como a vaga na universidade federal; ainda haveria a possibilidade de prisão ou pagamento de multa.

                No outro dia, enquanto ocorria o velório da minha avó a mais de dois mil quilômetros de distância, eu estático no quartel, contendo todas as lágrimas para não provocar qualquer reação mais adversa, era analisado como um pedaço de carne pelos militares e era obrigado a cantar o Hino Nacional e jurar lutar por uma nação onde políticos podem roubar, desviar dinheiro público e seus atos são referidos como falta de decoro parlamentar e não são presos, enquanto se eu faltasse a algo em que não acreditava para ir ao velório da minha avó que não via há um ano e meio poderia perder todos os meus direitos civis. No momento a única coisa que eu sentia era muita raiva, que eu estava representando uma farsa e que não poderia fazer de forma diferente, já que o Estado, por meio do exército, proíbe qualquer manifestação sincera, individualista e discordante do cidadão. O maior alívio que tive foi saber que no velório compareceram milhares de pessoas no velório, e que a memória que ficou da minha avó foi de uma pessoa que fez muita coisa pela sociedade. Praticando pequenas ações em toda a sua vida pode modificar a vida de centenas ou milhares de pessoas.

Por tudo o que citei questiono: se não é pela afinidade, pelo amor pelos indivíduos e principalmente pela sociedade, como um pensamento racional pode ser possível? Possível pode até ser, mas não é humano, é o pensamento de uma raça ariana superior de Hitler, é o pensamento sustentado pro uma classe intelectual que se pensa superior apenas por possuir conhecimento racional. Nada disso faz o caráter de uma pessoa melhor, só o que pode formar uma sociedade melhor, formada de indivíduos de bom caráter, é a razão motivada pela emoção e a emoção provocada pelo pensamento crítico.

 


Respostas

  1. RAZÃO:
    “Importuna razão, não me persigas, cesse a ríspida voz que em vão clama”

    Du Bocage (Morreu em 1805) e está sepultado na Igreja das Mercês em Lisboa.
    Ancioso pela Liberdade. Igualdade e Fraternidade que hoje 203 anos depois ainda deixa muito desejar em especial a Igualdade no Brasil.


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