Publicado por: Dan Caumo | 14 Fevereiro, 2008

Fotografias Abstratas

Os olhos captam inumeráveis informações diariamente que são percebidas de diferentes formas por diferentes indivíduos. Dentre essas, cada indivíduo seleciona aquelas que acredita serem as mais importantes, as demais ‘sublimam-se’ no inconsciente. Mas, a realidade disponível à percepção dos olhos não é igual a todos. Analisando a realidade visível a uma criança que vive em uma família com estabilidade com a de uma presente em um mundo conflituoso, podemos ter uma noção da personalidade que será desenvolvida a partir disto. Um exemplo claro refere-se à realidade para as crianças que vivenciam a miséria e a violência existentes nos guetos dominados pelo tráfico de drogas, o que poderão socializar é apenas o que estiver visível a elas. Porém, há informações que estão disponíveis a todos, que podem ser incitadas a observações independente das realidades vivenciadas, pois são verdades universais.

A poesia faz-se da estética do real expressa em um coerente jogo de palavras, estética visível aqueles que se dispõe a sensibilidade que uma imagem possa expressar. Há momentos de significação única que se imprimem na mente, não importa quanto tempo passará, sempre levaremos estes momentos em uma fotografia mental onde não se guarda apenas o visual, mas também o sensorial, o aroma, o tátil… O que as palavras podem expressar aqui é apenas uma parcela de todas estas sensações que foram agraciadas pelo racional, que foram decodificadas em idéias, ou se preferir, codificada em idéias, já que o real não é as designações que damos as coisas, o nome, mas aquilo que elas realmente são, que mesmo que eu possa exprimir em idéias gerais, terão uma significação única a mim e apenas uma parcela a quem possa ler este texto; mas que pode, mesmo assim, tirar conclusões do caráter universal que estas situações possuem, da universalidade independente da socialização diferenciada que cada indivíduo vivenciou.

A mais recente destas fotografias guardadas na minha memória, que persistirá por tanto quanto for o tempo que ainda houver idéias em minha mente, ocorreu em uma situação única. Conheci o meu pai apenas no final da minha infância e mesmo que tivesse referências visuais do que ele era, aquilo não tinha na época nenhuma significação emocional além do que a observação de uma fotografia de algo que não se conhece pessoalmente, como quem observa uma fotografia da Torre Eiffel sem nunca tê-la visitado. Por isto, o mais próximo de figura paterna que obtive da infância foi a presença freqüente do meu avô materno que me ensinou a maior parte das lições morais e boa parcela do amor e respeito que carrego comigo. Porém o destino que a vida toma não é o mesmo que gostaríamos que fosse, quando completei onze anos tive que deixá-lo para morar a aproximadamente dois mil quilômetros de distância. A sua presença em minha mente fez-se muito mais da importância que sua educação fez em minha vida, do referencial que ele é para mim, do que a presença real. Sempre que havia e ainda há algum desafio pela frente, quando abaixo a cabeça e as lágrimas escorrem pela face, as deixo caírem, mas lembro do que ele sempre me disse para erguê-la novamente e seguir em frente, a enfrentar os obstáculos. Há pouco tempo tive que conviver com um grande desafio, primeiro a morte de minha avó, sua esposa, e depois a depressão resultante do primeiro caso que o afligiu, diminuiu sua resistência e o levou a um quadro bastante complexo: infecção generalizada, um acidente vascular cerebral e o coma, primeiramente induzido e depois natural. Viajar dois mil quilômetros para vê-lo naquele estado foi brutal a minha psique, mas ver que mesmo em coma, ao declarar o amor e o que ele representava a mim, seus batimentos cardíacos aceleravam-se, foi simultaneamente mágico e doloroso; mágico por ter uma retribuição do que sinto por ele e doloroso por vê-lo daquela forma sem poder fazer movimento algum. Esta foi a primeira situação impressa na mente, mas o que viria a acontecer após é o real propósito do que escrevo aqui. Descrever esta fotografia mental, como disse não é fácil, mas é possível em uma parcela da totalidade de suas representações.

A luz possuía um tom ofuscante, tanto que todos os objetivos pareciam também emiti-la e não só refleti-la, o aroma era o do calor, um cheiro levemente ácido que misturava o odor da higiene recém feita com o do suor que brevemente exalava. Em uma cadeira branca com encosto de mão, estofada por um travesseiro no assento e outro no encosto, uma senhora de 96 anos trazia na face bastante alva o desconsolo impresso pela configuração daquelas rugas que já haviam deixado de serem flácidas e tomaram uma tenacidade pelo hábito de há muito tempo estarem ali, elas serviam de obstáculos para o suor e as lágrimas que escorriam. Apesar da idade, ainda era bastante consciente de tudo o que acontecia, acredito que na verdade era a mais consciente de todos ali, já havia perdido duas filhas, o marido, a maioria dos irmãos e os pais; a pessoa mais próxima que ainda continuava viva era o filho que no momento estava hospitalizado. Em seu colo, uma criança de um ano e oito meses aproximadamente, que fazia uma antítese perfeita com a senhora, a pele morena, de uma criança mestiça, e a suavidade comum aos indivíduos antes das agressões físicas do tempo. Em seu olhar, a inocência observava as lágrimas que escorriam nos olhos da vovó, que já haviam visto tudo que um indivíduo pode ver em uma vida, com um ar de espanto, perguntava-se por que ela chorava daquela forma, sem saber que foi uma atitude sua que havia provocado as emoções de todas, aproximadamente meia-dúzia, as pessoas presentes no momento. A situação ocorreu pouco antes, quando havia encontrado uma fotografia do vovô que trouxe a mão dizendo:

- Quero vovô! Quero vovô!

Ela, na sua inocência, expressava tudo o que todos ali mais queriam, mas não diziam pelo ressentimento que a situação provocava. Aquela criança, filha da empregada doméstica que há tempos já era figura importante e presente na família, era a maior alegria do vovô desde que havia perdido sua esposa, era ela quem mais recebia os ensinamentos dele, aqueles mesmos que eu havia recebido antes. Ele sempre teve uma grande afeição pelas crianças.

Há nessa fotografia abstrata que guardarei sempre na memória, um significado que não só e aquele visual, nem apenas factual, o que guardo ali são legitimações de uma verdade incondicional; primeiramente a do tempo que é igual a todos. Mesmo que aquela criança não venha a chegar aos 96 anos, ela terá um tempo para aprender, para fazer, para cumprir e para esperar; a apreensão da realidade ao seu redor e a significação que possui; o fazer a sua própria existência, o seu caráter; o cumprimento de tudo aquilo que a sua própria consciência manda fazer em relação ao seu ser social perante os demais indivíduos; o esperar por tudo o que não se pode fazer até então. O que todos no momento podem fazer e esperar que o vovô, o pai, o filho… Pudesse ter uma recuperação. Há também a legitimação de que somos responsáveis por todas as atitudes que praticamos independente da posição que temos na sociedade; o meu avô negou-se a submeter-se a tudo o que fosse contra os seus ideais e priorizou o respeito e o amor, é por isto que agora ele colhe estes sentimentos. Existe, igualmente, a verdade incondicional da representação que os valores morais podem provocar em relação a qualquer indivíduo em qualquer condição; se há uma figura representativa destes valores, assim como ele foi para mim e para todas estas pessoas, diante de qualquer situação em que se possa haver a chance e a propensão a corrupção. A corruptibilidade é comum ao homem, mas se há exemplos da resistência a isto expresso por alguns indivíduos (mesmo quando as referências são algumas figuras públicas) não é justificável, portanto não há desculpas para qualquer imoralidade como as praticadas na política onde mais do que qualquer outro lugar deva existir imagens incorrutíveis. Seja qual for a sociedade que um indivíduo tenha por legítima, não justifica a imoralidade se há exemplos que provém o contrário.


Respostas

  1. Dan!
    Esse é o segundo texto seu que eu leio. Tal qual o primeiro, me tocou fundo!
    As minhas faces ainda estão úmidas…
    Passou um filme em minha mente… De tão bem que você descreveu a história…

    A bagagem que importa, são os valores morais e ético. E essa é a herança, a mais preciosa que seu avô deixou! Um belo exemplo!

    Você, pelo o pouco que conheço, também é uma pessoa nobre! Um nobre de caráter!

    Parabéns! Até pelo texto! Lindo demais!

    Beijo grande,

    p.s: Haja coração forte para ler os seus textos, moço!

  2. …o que fica de nós é isso, o que fizemos e demonstramos por atos, palavras devem ser praticadas, quando doamos nosso tempo, amor com o proximo, isso sim é praticar amor, que foi o ensinamento de Jesus, e não a corrupção que existe hj “em nome dele”,
    belo texto…
    pena que poucos possuem essa essência.


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