Publicado por: Dan Caumo | 19 Dezembro, 2007

O cinema de Glauber e o Regime Militar

por Daniel Magalhães Caumo e Mariana Benevit

Era 13h30 do dia 8 de setembro de 1980, último dia do Festival de Cinema de Veneza, quando, em uma coletiva, o cineasta italiano Gillo Pontecorvo, presidente daquela edição, anunciou os quatro vencedores do Leão de Ouro: Atlantic City de Louis Malle e Gloria de John Cassavetes na categoria principal, Um dia especial (Ajándék ez a nap) de Péter Gothár como melhor filme de estreante e Megalexandros de Theodoros Angelopoulos como melhor filme experimental.

Indignado com o resultado, Glauber Rocha saí do Hotel Excelsior, ao avistá-lo da sacada do hotel, Malle cauteloso pede ao brasileiro “cabeça fria, pois festival é assim mesmo, nem todos podem ganhar”. Glauber grita para a sacada: “Malle, você sabe que não é nada disso, o que se passou ali foi algo muito diferente, você ganhou o Leão de Ouro porque as cartas estavam marcadas, você venceu porque o seu filme foi produzido pela Gaumont, uma multinacional imperialista”. Perante o ocorrido, juntam-se dezenas de fotógrafos, repórteres e cinegrafistas e Glauber acusando alto e bom som que o júri foi “pago pela Columbia, pela Gaumont e pela RAI, para premiar diretores de segunda classe como Malle e Cassavetes, e o superado Angelopoulos”, inicia um comício passeata pela avenida beira-mar Lido em direção ao Palácio do Cinema, onde ocorriam as exibições do festival.

Durante o trajeto, acusa a organização do Festival de programar os filmes do Terceiro Mundo (os árabes e os latino-americanos, incluindo o seu) em horários desfavoráveis, cometendo um ato racista e de terrorismo cultural, uma agressão ao Terceiro Mundo e ao Brasil; enquanto centenas de curiosos e jornalistas o acompanham em meio a alguns aplausos. Ao seu lado, a cineasta e atriz brasileira Ana Maria Magalhães diz: “Não pode falar isto que você está falando, Glauber”. Como resposta, recebe: “Eu posso”.

Ao chegar a frente ao Palácio do Cinema, Glauber pára e desafia o júri a olhar em sua cara enquanto diz: “Isto é um desrespeito à cultura, premiar um filme de Louis Malle… é uma vergonha. O Sr. George Stevens representa aqui o Pentágono! O Sr. Andrews Sarris representa a CIA! Os críticos que estão de acordo com esta premiação estão assinando a sua própria sentença de morte cultural. É um desrespeito com a tradição do cinema, com a Itália, a Itália de Rossellini, de Visconti. Isto não é possível”. Os americanos Andrews Sarris e George Stevens eram dois dos nove integrantes do júri, e a franco-italiana Gaumont, distribuidora de Atlantic City, a americana Columbia Pictures, produtora de Gloria, e a italiana RAI, que tinha dez filmes no festival entre eles Megalexandros, eram as três maiores empresas de valor econômico no evento; por isto, Glauber acreditava que o Festival de Veneza estava se rendendo ao cinema comercial. Termina o seu discurso prometendo uma campanha em toda a América Latina contra o imperialismo cultural.

O filme do cineasta brasileiro – A Idade da Terra – que também concorria ao Leão de Ouro havia gerado grande polêmica. Glauber chegou a Veneza prometendo uma obra de vanguarda, sem enredo, um filme de imagens e de som; além de desfrutar de grande reconhecimento internacional influenciado pelo sucesso de seus filmes nos festivais europeus, incluindo três prêmios em Cannes; fatores estes que provocava grande expectativa em relação à obra. Porém, durante a exibição, a sala inicialmente cheia, estava quase vazia antes que o filme terminasse. Segundo Paloma Rocha, filha de Glauber, “no Brasil ninguém compreendeu o filme e em Veneza e no Mundo foi massacrado, com exceção de alguns poucos críticos e cineastas como Michelangelo Antonioni e Renzo Rossellini. Glauber pagou um preço muito caro, acho que com a sua própria vida, por tanta incompreensão e pelas acusações que sofreu”. Inclusive artistas da esquerda com quem Glauber compartilhava orientações, acusaram-no de trair os seus ideais.

O incidente de Veneza afetaria Glauber até o final de sua vida.

HISTÓRIA E CONTEXTO

Desde muito cedo, Glauber Rocha esteve envolvido com a sétima arte. Aos 13 anos já participava como crítico de cinema em um programa de rádio. Aos 18, filma Pátio (com restos de filme de Redenção, o primeiro longa-metragem baiano) que será lançado em 1959. Nesse mesmo ano termina as filmagens de outro filme, Cruz na Praça, baseado em uma crônica de sua autoria. No entanto, ao já perceber mudanças em suas concepções estéticas, este último não é finalizado.

Em 1960, com 21 anos, Glauber começa a se corresponder com Alfredo Guevara, então um dos diretores do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica (ICAIC). Ainda em 60, é chamado para trabalhar nas filmagens de Barravento. Após alguns problemas nas gravações, Glauber acaba assumindo a direção e refaz o roteiro. O filme, finalizado em 61, recebe vários prêmios na Europa.

Porém, o reconhecimento de seu trabalho viria três anos depois. Em 1963, época em que a consciência social e política dos estudantes incomodava, reclamando reformas profundas nas estruturas da sociedade brasileira, Glauber filma Deus e o Diabo na Terra do Sol, filme que apresenta um ambíguo Antônio das Mortes e que auxilia a promover o Cinema Novo no Brasil e no exterior.

Como afirma Paulo Antonio Paranagua em seu livro Cinema na América Latina – Longe de Deus e perto de Hollywood, “O subdesenvolvimento não é mais um dado estrutural assumido com passividade ou fatalismo”. A renovação estética proporcionada pelo Cinema Novo permitia a demonstração dos parcos recursos empregados para a elaboração dos filmes. Nada mais coerente, portanto, para um país subdesenvolvido do que retratar o seu subdesenvolvimento. Não mais uma produção cinematográfica de linguagem fácil, que apenas reproduzisse os ideais estrangeiros introjetados na nossa cultura. Era necessário violentar; colocar o Brasil diante de um espelho.

“Uma estética da fome, uma estética da violência”, proclamava Glauber Rocha. Das duas vertentes, dois caminhos que demonstravam diferentes formas de encarar o Cinema Novo, Glauber via “a arte como prática política”. O cineasta não buscava o didatismo contido na produção dos Centros Populares de Cultura (os CPC´s – que viam a “obra de arte como um serviço social”). Diferentemente dessa corrente de pensamento, ele acreditava que a preocupação com a estética deveria ser proporcional à preocupação com a política. Não acreditava que o discurso político pudesse renovar as bases políticas nacionais se estivesse atrelado a um padrão estético que nada tinha a ver com a realidade brasileira. “Eu acredito que a obra de arte é um produto da loucura. A loucura como a lucidez, a liberação do inconsciente”, afirmava o cineasta.

Porém, essa posição de Glauber (e de outros cineastas pertencentes ao que se convencionou chamar de Cinema Novo) de recusa do cinema industrial, assumindo uma linguagem crítica e mostrando uma visão desalienadora acabou tornando seus filmes inacessíveis à maior parcela da população brasileira.

Às vezes motivado por sua criatividade apurada, por sua mente inquieta, às vezes pressionado pela censura – como no caso em que teve que substituir o primeiro roteiro de Terra em Transe, que era demasiadamente direto e explícito, Glauber Rocha pareceu dirigir toda a sua produção aos intelectuais, aos militantes.

Quando o Golpe ocorreu, o cineasta estava em Cannes, já que Deus e o Diabo concorria à Palma de Ouro. Só retornaria ao país em 65.

Glauber mal retorna ao Brasil e já é preso em um protesto contra o regime militar, durante a reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA) no Rio de Janeiro. Sua soltura só é apressada porque cineastas como Godard e Truffaut enviam uma carta-protesto para o presidente Castelo Branco. Tal experiência só fez crescer o engajamento político de Glauber, que já apresentava ligações com a esquerda desde a época em que estudava Direito, em 1967 – quando participou do jornal O Momento, de claro posicionamento esquerdista. Importante ressaltar, com este acontecimento, a importância que o governo brasileiro dava para a imagem do país no exterior, cedendo à pressão dos intelectuais.

Maranhão 66 é o curta que ‘homenageia’ José Sarney, quando este toma posse do governo do Maranhão. O curta será inspiração para o cineasta criar as cenas de comício no filme Terra em Transe, filmado em 67.

Terra em Transe chega a ser proibido em todo o território nacional, sendo considerado subversivo e ofensivo à Igreja (apesar disso, o roteiro original, mais direto e explícito em suas intenções e situações da história do país já havia sido substituído por outro, mais metafórico). A personagem Felipe Vieira (representado por José Lewgoy), com a imagem do político populista, faz clara alusão a João Goulart.

1968 é o ano das manifestações de maio na França, da passeata dos 100 mil no Rio (que Glauber inclusive registra em um curta intitulado 1968). É Época do AI-5 e da explosão das guerrilhas urbanas. É o ano das filmagens de O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, que retoma a história do Antônio das Mortes do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Antônio procura exterminar os religiosos fanáticos e os cangaceiros. Apesar de ser pago pelos proprietários de terras para realizar sua tarefa, também busca a Revolução, já que deseja livrar os camponeses de qualquer forma de alienação. Principalmente em Deus e o Diabo…, Antônio rouba a cena, com uma profundidade psicológica desconcertante, como se o próprio Glauber vestisse o longo casaco do pistoleiro, nos convocando à ação.

O discurso político de Glauber Rocha não era centrado no camponês, nas classes exploradas, mas sim, no homem de classe média, que está entre os dois extremos, já que convive com as classes ricas e com as classes miseráveis. Segundo alguns autores, o apogeu da utilização desse tipo de ‘herói’ ocorre justamente com a personagem Antônio das Mortes – que aparece no filme Deus e o Diabo na Terra do Sol e em Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro.

Em 1969 filma no Congo O Leão de Sete Cabeças, e em 70, o cineasta filma Cabeças Cortadas, que representa um mergulho na estética e em um simbolismo exacerbado. A mensagem que estava acessível apenas aos intelectuais e militantes, se tornou quase inalcançável, e seus filmes, antes tão aplaudidos, já não são mais bem-vistos pela crítica.

A produção cinematográfica nacional deu um grande salto, se considerarmos o intervalo que vai do nascimento de Glauber (1939) até o ano de 1970. O governo, em 39 obrigava a exibição de um longa-metragem brasileiro por ano em cada sala de cinema. Em 70, esse número chega a 112; são 112 dias de exibição por ano. O próprio surgimento do Cinema Novo coincide com a expansão do cinema nacional ­­­– que entra numa fase de franco crescimento no Rio de Janeiro a partir de 1962.

EXÍLIO

Em 1971, quando a repressão e perseguição política tornam-se mais duras, vendo vários de seus amigos mais próximos no exílio e o risco eminente de sua prisão, decide deixar o país. Exílio que não poderia vir em melhor hora, já que em setembro do mesmo ano o Ministério da Aeronáutica publica um documento registrando ‘atividades subversivas’ de Glauber Rocha. Entre os argumentos do documento estão a sua prisão em 1965; as ‘calúnias’ contra o país publicadas no Times de Londres em julho; a sua adoção aos postulados do Congresso Cultural de Havana de 1968, além do depoimento publicado no Diário de Notícias da Guanabara, onde Glauber afirmava que o único instituto nacional de cinema no mundo que funcionava era o de Cuba; a sua amizade com ator Othon Bastos e outros elementos da esquerda e de formação marxista como Luiz Carlos Barreto, Joaquim Pedro de Andrade e Noênio Spindola; além de considerá-lo um dos líderes da esquerda brasileira no campo do cinema. Os compositores Jards Macalé e Manduka afirmavam que o cineasta sempre dizia aos amigos “não diga que me viu para a sua segurança pessoal” meio em tom sério, meio em brincadeira.

Glauber viaja em janeiro para Nova York onde participa de uma conferência sobre cinema brasileiro e é convidado para filmar em Hollywood, mas rejeita o convite dizendo: “Não sou funcionário de estúdio. Filmo o que quero filmar”.

Em maio, vai para Santiago do Chile onde pretendia fazer um filme no qual Norma Bengell faria parte do governo de Salvador Allende. Sendo admirador do presidente chileno, tinha urgência de fazer um filme político, pois afirmava que ele sofreria um golpe militar, o que ocorreria no dia 11 de setembro de 1973, pouco mais de um ano depois. Durante os meses seguintes, Glauber viaja por várias cidades européias como Londres, Paris e Munique onde encontra outros brasileiros exilados e cineastas europeus, entre eles o cantor Caetano Veloso e o diretor alemão Peter Fleischmann.

Em novembro de 1971, Glauber vai para Cuba onde pretendia realizar um épico sobre a América Latina chamado América Nuestra, porém, perante a impossibilidade de filmar, dedica ao filme História do Brasil, uma montagem a partir de trechos de 47 filmes brasileiros. Durante a sua estada em Havana que duraria até dezembro de 1972, acompanha o treinamento dos guerrilheiros e encontra com as lideranças da esquerda brasileira que estavam exiladas, entre eles José Dirceu, Fernando Gabeira, Vladimir Palmeira e Onofre Pinto. Neste período em que mora em Cuba, faz algumas viagens pela América Latina e escreve o roteiro de A Idade da Terra.

Glauber parte para a Europa em 1973 onde residiria até o retorno ao Brasil, vivendo entre Paris e Roma. Em fevereiro deste mesmo ano, o filme Cabeças Cortadas é proibido pela censura por “provocar incitamento contra regime vigente, a ordem pública, suas autoridades e seus agentes”. No mesmo ano, finaliza após várias interrupções o filme História do Brasil sobre o cinema brasileiro. Sustenta-se através da criação de roteiros pré-pagos por produtores.

Após longo período de críticas e campanha contra o Regime Militar instaurado no Brasil em 1964, Glauber Rocha assusta tanto militantes da direita quanto da esquerda com uma carta de apoio ao General Ernesto Geisel que assumia a presidência da República dirigida ao jornalista Zuenir Ventura, onde dizia: “Estou certo inclusive que os militares são legítimos representantes do povo. [...] Acho que Geisel tem tudo na mão para fazer um país forte, justo e livre. Para surpresa geral, li, entendi e acho o General Golbery um gênio, o mais alto pensador da raça ao lado do professor Darcy”. Esta afirmação causaria a ira da esquerda, porém, amigos mais próximos, conhecedores do pensamento de Glauber, alertam para o fato de ele imaginar que poderia aproximar os militares dos pensadores, o que contribuiria para a mudança de pensamento dos governantes. Estava desesperançoso em relação ao sufrágio universal direto, achava improvável a escolha de uma excelente representação pelo povo e acreditava em uma ótima política de reabertura pelo General Geisel, além de acreditar no seu potencial de administração pública. Glauber não achava provável que o Brasil pudesse chegar ao socialismo através da eleição, mas que era menos improvável que os militares pudessem deixar de ser a mão armada da classe dominante para ser a força defensora das classes oprimidas.

Esta visão de Glauber em relação a uma possível mudança de ideologia do Regime Militar é possível de se entendida quando sublinhado a sua grande crença nas pessoas. Acreditava acima de tudo no potencial do homem. Sérgio Ricardo, compositor, destaca o fato de que durante a produção de Terra em Transe, Glauber havia falado a ele que escrevesse a orquestração do filme, porém, não tendo nunca escrito uma sinfonia, assusta-se e afirma a Glauber que não saberia fazer, o diretor continuou teimando com o compositor, que acabou compondo uma excelente trilha sonora. A visão utópica do cineasta foi uma das raízes que propiciaram a formação do grande artista. Rubens Gerchman, artista plástico, afirma que ele “era uma pessoa que nos ajuda a pensar grande. O que sinto hoje no Brasil é que o teto de ousadia diminuiu muito. Glauber era um sonhador”.

Em 1976, em busca de financiamento para a produção de A Idade da Terra e em divulgação de seus filmes em universidades à convite de Daniel Talbot, vai para os Estados Unidos. Talbot tenta apoio de Francis Ford Coppola para a produção do filme de Glauber, mas este nega a possibilidade, devido a sua viagem para as Filipinas para as filmagens de Apocalipse Now. Não consegue o financiamento, porém tem o passaporte liberado pelo Itamaraty para retornar ao Brasil, por intervenção do General Golbery. Em 23 de junho volto ao Brasil depois de cinco anos no exílio e filma o curta Di Cavalcanti durante o velório do pintor, devido a um acordo entre os dois de que quem morresse primeiro teria a morte registrada pelo trabalho do outro. O curta ganha o prêmio especial do júri de Cannes, mas é proibido a partir de um recurso judicial pedido pela família do pintor.

TRANSCENDÊNCIA

Após a morte de sua irmã, a atriz Anecy Rocha, ao cair no poço de um elevador, Glauber inaugura uma nova fase de sua vida influenciada pelo abalo ocasionado pelo fato. Interrompe todos os seus trabalhos e retorna incorporando a tragédia em sua obra. Também passa a andar nu em casa e inclusive entre amigos, pintar-se de índio e trocar as letras C, I e S de seus textos por K, Y, Z e X, ‘corrigindo’ inclusive textos antigos. Arnaldo Jabor afirma que “Glauber era utopia em estado vivo e passou a vomitar o inconsciente”.

Esta nova visão adotada por Glauber seria fundamental para a forma como filmaria em 1978 em Salvador, Brasília e Rio de Janeiro A Idade da Terra. Nesta fase, Glauber adere a um pensamento megalomaníaco, lançando-se candidato a presidência da República em Brasília durante as filmagens. Em carta a Jorge Amado escreve: “tenho ambições políticas: ser Ministro das Relações Exteriores ou da Educação e Cultura (acho que este ministério deve ser dividido – quero ser ministro da Cultura) e/ou governador da Bahia, suceder o próximo e, naturalmente, Presidente, mas com eleições diretas”.

Ainda em 1978, em outubro, com a liberação de algumas obras antes censuradas pela DCDP (Divisão de Censura de Diversões Públicas), Cabeças Cortadas é liberado em versão completa pela Censura Nacional.

Em 1979, continuando o período de idealização de grandes projetos, tenta obter uma bolsa de estudos na Inglaterra para estudar e adaptar a obra de Oscar Wilde, além do projeto de um roteiro sobre Marx e Engels, um filme sobre as relações da economia com a filosofia e uma montagem do Fausto de Marlowe. No mesmo ano, Figueiredo torna-se presidente, pondo fim ao AI-5. Porém greves de operários surgem em todo o Brasil com tentativas de repressão por parte do governo.

Com o término da produção de seu último filme, após a morte de seu pai, Glauber parte para o Festival de Cinema de Veneza de 1980 onde A Idade da Terra seria exibido no dia 2 de setembro, com a proposta de não numerar os rolos, o filme poderia ser exibido em qualquer ordem pois queria quebrar com a estrutura narrativa. Após o término, faz o protesto perante o resultado e recebe o apoio de apenas alguns poucos críticos e cineastas. O jornalista do Le Monde que afirmou em edição de setembro de 1980 que o filme não se enquadrava “em nenhuma das categorias conhecidas do cinema ocidental”. Para o jornalista francês, a obra representava um salto qualitativo do cinema pelo Terceiro Mundo. Renzo Rossellini considerou o filme “o maior desafio filosófico e formal que o Ocidente poderia receber no campo do cinema”. Michelangelo Antonioni considerou uma “lição de cinema moderno”.

Porém, o incidente em Veneza foi bastante forte para o ego de Glauber e traria complicações em sua própria saúde. Em entrevista para o jornalista Pedro Del Picchia em outubro do mesmo ano, Glauber diz: “saí de Veneza vomitando. Passei dois dias em Florença com febre alta. Estou doente em Roma. Roma está fedendo, a cidade está cheia de marginais, está suja. [...] Minha relação com o cinema acobou em Veneza . Aproveito para dar um adeus definitivo à vida cultural brasileira. Vocês não me verão mais. Nunca”.

No início de 1981, Glauber dirige-se então para o isolamento com a família, vai morar em Sintra, Portugal, onde recebe o diagnóstico de pericardite viral. Recebe a visita de vários amigos e quando um deles pergunta se não tem medo da morte, responde que embora queria continuar vivo, já tinha realizado tudo o que gostaria de ter feito na vida e morreria feliz. No dia 6 de agosto é internado em estado grave em Lisboa. Chega no Rio no dia 21 de agosto. Morre às 4 horas da manhã do dia 22 de agosto e é enterrado no cemitério São João Batista no dia 23, com 42 anos, a idade que anos antes dizia que morreria por ser uma reencarnação de Castro Alves que morreu com 24 anos. O enterro é feito com o emocionado depoimento do amigo, o antropólogo Darcy Ribeiro:

“Glauber passou uma manhã abraçado comigo chorando, chorando, chorando compulsivamente. Eu custei a entender, ninguém entendia que Glauber chorava a dor que nós devíamos chorar, a dor de todos os brasileiros. O Glauber chorava as crianças com fome. O Glauber charava a brutalidade. O Glauber chorava a estupidez, a mediocridade, a tortura. Ele não suportava, chorava, chorava, chorava. Os filmes do Glauber são isto. É um lamento. É um grito. É um berro. Esta herança que fica de Glauber par nós é de indignação, ele foi o mais indignado de nós. Indignado com o mundo qual tal é. Assim”.


Respostas

  1. Eu imagino que os artistas não caminhem numa linha comum, como todos o fazem, mas sim num trajeto que oscila entre a lucidez extrema, incompreensível até mesmo àqueles mais inteligentes e a loucura irracional. Para mim todos são profundamente felizes, profundamente tristes e profundamente paralelos àquilo que a maioria da sociedade pensa. Acredito que o grande erro de um artista seja o de ir de encontro ao que muitos críticos e muitas pessoas que não possuem tamanha sensibilidade estética dizem…acho até que premiar ou desdenhar alguma obra artística seja um erro enorme, afinal a arte não se mede, não se avalia, nem podemos definí-la, saber se ela existe ou não. Ela é como Deus ou qualquer outro ser etéreo, não vemos, mas acreditamos. E, sim, eu já passei por críticos e não gostei nem um pouco, mas creio que sou jovem e ainda supero isso! quisera eu nunca mais topar com eles!


Deixe uma resposta

Sua resposta:

Categorias