6h44. O silêncio que domina o quarto é apenas o prenúncio de uma sucessão de fenômenos que a partir do próximo minuto ocorrerão. É como aquele momento em que todas as luzes do teatro estão apagadas e o silêncio é tanto que é possível ouvir a própria respiração. 6h45. Como por um passe de mágica, liga-se a televisão automaticamente, o choque da realidade com o sonho faz-se presente. Tento abrir os olhos, mas a luz machuca a retina dilatada. Os sons estranhos que aos poucos vão sendo decodificados anunciam uma realidade que parece muito distante. Aos poucos, o corpo se habitua a agressão que o ‘real’ provoca a cada instante. A partir de então, começa o ritual: ligo a cafeteira elétrica, vou para o chuveiro elétrico, desligo a cafeteira elétrica, ligo a torradeira elétrica, abro a geladeira (elétrica), procuro algo para passar na torrada. Sou um dependente da máquina. Sobra algum espaço para o ‘humano’?
No sentido de normalidade ao qual atribuímos todos os fenômenos que se repetem a cada dia, muitos absurdos são aceitos. Tornam-se coisas banais, corriqueiras, normais. Perdemos a consciência de que somos as nossas inclinações, ambições, interesses. Acreditamos que somos a própria rotina, imposta pelo todo. Tornamos uma peça num tabuleiro em que os jogadores são invisíveis, imperceptíveis. Enquanto me transporto até a faculdade encaro os mesmos rostos de sempre; imagino que cada um, assim como eu, é escravo da sua própria rotina; é escravo do mundo de máquinas em que vive. Em algum ponto do ônibus, um celular toca, vários rostos, em feições preocupadas, procuram os seus próprios aparelhos; algumas feições continuam preocupadas, outras passam a decepcionadas e uma única gesticula com a caixinha de metal. Em outro ponto do ônibus, uma jovem com fones de ouvido deixa a mente ser dominada pelas notas e acordes músicas emitidas por outra caixinha metálica. Alguns poucos conhecidos mantêm uma relação um pouco mais humana com contatos visuais restritos, uma conversa formal. Todos inertes em suas ‘normalidades’ não conseguem perceber que é contrário a razão o fato do menino estar pedindo dinheiro, que não é natural dezenas de pessoas dentro de uma caixa de metal como se fossem sardinhas.
O cumprimento das atividades é o momento em que, geralmente, o humano não tem espaço. Seja aliado à máquina ou usando as próprias funções, o homem ganha uma dimensão onde é inadmissível que haja ‘fraquezas’. Não importa se acordou indisposto, se está psicologicamente abalado, se tem dificuldade para a aritmética; o homem-máquina tem que produzir, produzir e produzir. Na faculdade, a atenção é o que mais importa; qualquer descuido e a mente tenta escapar da rotina, viajar pelo imaginário. O ‘humano’ aparece em um raro momento, mas logo é trazido novamente à jaula onde o domador é o próprio homem-máquina.
A partir de então é como se alguém tivesse apertado o botão de voltar e eu retornasse ao ponto de partida. Atividades – transporte – casa – cozinha – banheiro – quarto – cama. O humano, reprimido durante toda a rotina, pode se expressar então; porém, o corpo adormecido já não obedece mais, está sendo preparado para outro dia.

Agora já não há mais jeito. O ser humano virou máquina e pronto. Agora é tentar achar algumas brechas humanas nisso tudo. :/
Bem, belo texto, ótimo blog. Parabéns.
Por: Isabela em 25 Fevereiro, 2008
às 11:12 pm